A área de quadras do Villa-Lobos, em novembro de 2022 (esq.) e em julho de 2025 (dir.)
Maria Helena Osorio Bueno
Presidente da SAAP
Os mais novos talvez não se lembrem, mas na década de 1980 havia um plano para transformar o enorme lixão ao lado da Marginal Pinheiros em um condomínio de prédios: vários conjuntos de espigões, que representariam mais ilhas de calor. Porém, graças ao engajamento da sociedade civil, em vez de uma selva de pedra o que nasceu foi uma extensa área verde, onde hoje estão os parques Villa-Lobos e Candido Portinari. As associações de moradores tiveram papel fundamental nesse processo.
A relação da SAAP com os dois espaços começou naquela época — portanto, antes mesmo de eles serem criados. Passados quase 40 anos, temos a satisfação de confirmar que estávamos do lado certo. Se na ocasião já era importante que São Paulo ampliasse e conservasse suas áreas verdes e de lazer, ao longo do tempo a importância mostrou-se ainda maior.
Desde que o projeto do parque Villa-Lobos saiu do papel, em 1989, a SAAP esteve atenta à sua implementação. Pudemos acompanhar muito de perto, em diferentes momentos, as dificuldades e os avanços. A vegetação ainda rala logo após os primeiros plantios, e ganhando corpo posteriormente. A estrutura em paulatino aprimoramento, depois em paulatino desgaste.
Quando o Villa-Lobos e o Candido Portinari entraram nos pacotes de concessão do governo de São Paulo, estavam longe de ser perfeitos. O edital estabelecia padrões de manutenção mais rigorosos e obrigava os vencedores a apresentarem um plano de trabalho — havia, portanto, possibilidade de melhorias reais. Na ocasião, a SAAP manteve uma postura cautelosa. Percebia que, nas mãos do governo paulista, a gestão deixava a desejar, mas observava que a administração privada de outro parque da capital, o Ibirapuera, também tinha problemas.
Hoje, não hesitamos em afirmar que o trabalho da concessionária está bem pior do que imaginávamos. Em 2023, um ano depois da concessão, a SAAP fez uma enquete com frequentadores assíduos dos parques; a maioria apontou problemas de segurança, excesso de eventos e falhas de manutenção. Em 2024, realizamos nova enquete, e o excesso de eventos apareceu disparado como a questão principal. “Estão transformando, pouco a pouco, um parque natural em um parque de diversões”, resumiu um dos respondentes.
Levantamentos feitos pela SAAP entre setembro de 2024 e novembro de 2025 confirmam essa impressão. Os estudos apontam que dois terços dos eventos têm acesso restrito: várias partes do parque ficam temporária ou permanentemente indisponíveis para o público não pagante. Os visitantes comuns perdem áreas abertas, de livre circulação.
Para agravar o cenário, a concessionária entulha os parques de eventos, mas descuida da manutenção. Em 2025, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) aplicou multa de quase R$ 43 mil justamente por isso.
Motivações como essas levaram a SAAP a acionar o Ministério Público. No mês passado, a 3ª Promotoria de Patrimônio Público e Social da capital abriu inquérito para investigar possível desvio da finalidade pública no Villa-Lobos e no Candido Portinari, em razão da “exploração econômica intensiva dos espaços”, da realização reiterada de eventos privados e de possível deficiência na fiscalização. No começo de julho, também baseada em representação da SAAP, a Promotoria de Justiça do Meio Ambiente do Ministério Público estadual abriu uma segunda investigação.
A posição da SAAP é de que, mesmo sob concessão, parques urbanos devem, sobretudo, oferecer à população lazer gratuito, oportunidade de praticar atividades físicas, ambientes de sossego e contemplação da natureza. E que deve ser respeitado seu importante papel na preservação da fauna e da flora. Preservar parques é mais do que preservar a cidade: é preservar também o bem-estar das pessoas que nela vivem e viverão.












